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“Aos Pedaços”: labirinto construído por Ruy Guerra transita entre o artificialismo do teatro e aspectos do cinema experimental | 2025

“Aí vindes outra vez, inquietas sombras…”

Não seria nada estranho se, em qualquer momento de “Aos Pedaços”, essa frase faustiana que se popularizou na cultura brasileira após ser referenciada pelo maior de nossos narradores, Bento Santiago, fosse proferida por Eurico Cruz num de seus devaneios. Afinal, assim como o assombrado advogado que rememora sua vida no clássico “Dom Casmurro”, o personagem central do longa dirigido por Ruy Guerra terá de lidar com obsessões que o tomam de assalto a partir de sua relação inquisitória com o feminino.

Se na obra-prima de Machado de Assis Capitu era a esfinge a ser decifrada por um homem solitário e amargurado, na trama escrita pelo diretor luso-brasileiro (nascido em Moçambique quando a ilha ainda era colônia portuguesa) e por Luciana Mazzotti as angústias de Eurico surgem quando ele, alguém que mantém um relacionamento com duas mulheres que se chamam Ana (Simone Spoladore e Christiana Ubach) em casas praticamente iguais, recebe um bilhete anônimo anunciando sua morte. Daí por diante, o protagonista entrará numa espiral de divagações e suspeitas que colocará em risco não só a vida dupla que leva, mas também a sua sanidade.

Filmado num preto e branco que sugere um jogo permanente entre dualismos, a narrativa é composta por diversos elementos que evidenciam seu aspecto teatral. Da iluminação feita por Pablo Baião aos longos planos em que os atores praticamente proferem monólogos (com eventuais quebras da quarta parede) como se estivessem numa espécie de aparte, a proposta aqui é claramente trabalhar com o artificialismo. Contudo, tais opções estéticas jamais representam o abandono de um caráter cinematográfico. A câmera, por exemplo, funciona quase como uma entidade, que acompanha os movimentos bruscos dos intérpretes numa relação bastante dialógica. Além disso, é flagrante a tentativa da direção de imprimir em tela uma inebriante atmosfera de paranoia lançando mão de recursos audiovisuais tais como a voz em off (atenção à curiosa participação de Arnaldo Antunes), enquadramentos inusitados e, principalmente, um interessante manuseio do foco das lentes.

No entanto, se o radicalismo experimental de um veterano de 93 anos (irmanando-se nesse sentido a Júlio Bressane) é apresentado de forma louvável e inspiradora, o mesmo não se pode dizer da condução da história contada. Em meio à construção desse labirinto no qual uma figura conflitante precisa enfrentar seus demônios, o realizador de “Quase Memória” (filme de 2015 com o qual este guarda algumas semelhanças) não consegue conciliar tão bem o poder das imagens lapidadas com a manutenção do engajamento acerca dos rumos dessa mistura pouco azeitada entre “As Diabólicas” (1955) e “Tramas do Entardecer” (1943).  Nos espelhamentos criados por Ruy Guerra, a constante reconfiguração dos estilhaços humanos, ao invés de intrigar, deixam apenas a sensação de que o quebra-cabeças veio com peças faltando, mas não de modo não proposital como acontece nas joias machadianas.

Alan Ferreira

Professor, apaixonado por narrativas e poemas, que se converteu ainda na pré-adolescência à cinefilia, quando percebeu que havia prendido a respiração ao ver um ônibus voando em “Velocidade Máxima”. Criou o @depoisdaquelefilme para dar vazão aos espantos de cada sessão e compartilhá-los com quem se interessar.

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