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“A Voz que Resta”: adaptação de monólogo teatral sobre jornalista em crise amorosa chega às telas do cinema | 2025

Atrair o público para monólogos no teatro pode ser uma tarefa difícil em tempos de linguagem dinâmica e comodismos virtuais. Geralmente, quando o artista embarca em um projeto solo no palco, é importante ter elementos como carisma e um texto que desperte interesse e envolva o público para que as engrenagens funcionem. Tive a oportunidade de conferir bons exemplos, como o bem-sucedido “A Casa dos Budas Ditosos”, com Fernanda Torres, onde ela, sentada apenas em uma mesa, destrincha a vida sexual dessa personagem baiana libertina e singular do livro de João Ubaldo Ribeiro.

“A Voz que Resta” também é um monólogo de sucesso que esteve em cartaz por algumas temporadas, sendo defendido com garra e paixão no palco pelo ator Gustavo Machado, conhecido por interpretar Ronaldo Boscoli no filme sobre “Elis” (2016). Com um texto visceral sobre um jornalista embriagado chamado Paulo, que se encontra imerso em devaneios de um coração partido pela vizinha casada, Marina, e grava uma longa mensagem de despedida em um gravador de fita cassete. Ciúmes e frustração dominam a obra, que se baseia exclusivamente na energia e na excelente performance do ator, devidamente capturada e adaptada para as telonas.

Dirigido e estrelado por Gustavo Machado (Paulo) e Roberta Ribas (Marina), o filme situa o protagonista Paulo dentro de seu apartamento, imerso em uma luz vermelha cintilante que salta aos olhos, em uma espécie de transe, enquanto dispara frases como: “Eu não digito, Marina, eu digito acariciando as teclas como quem puxa um gatilho”. Cenas do casal se amando ou interagindo no passado são integradas à cena em uma justaposição com a imagem de Paulo embriagado no apartamento. A estética noir também é perceptível na obra, o que adiciona contornos mais atrativos à sua ambientação.

Como curiosidade, o filme foi gravado por uma equipe reduzida durante 4 dias no próprio apartamento do ator Gustavo Machado, o que contribuiu para a experiência ser o mais intimista e realista possível, mesmo diante dos desafios da pandemia. Após 5 anos de sua gravação, o filme foi finalizado e agora chega aos cinemas brasileiros. Para os menos atentos, pode ser desafiador acompanhar o fluxo inesgotável de pensamentos do personagem, mas o roteiro, baseado no texto afiado de Vadim Nikitin, compensa a experiência de um monólogo imersivo e mais lento do que o habitual no cinema.

Marcello Azolino

Advogado brasiliense, cinéfilo e Profissional da indústria farmacêutica que habita São Paulo há 8 anos. Criou em 2021 a página @pilulasdecinema para dar voz ao crítico de cinema e escritor adormecido nele. Seus outros hobbies incluem viagens pelo mundo, escrever roteiros e curtir bandas dos anos 80 como Tears For fears, Duran Duran e Simply Red.

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