“A Ordem do Tempo”: Fim do mundo serve de catalisador para grupo de amigos refletirem sobre seus sentimentos e frustrações | 2024

Um grupo de amigos se reúne em uma casa de praia e aos poucos a dinâmica dos casais ali presentes vai tomando contornos inesperados, quando a notícia de que um asteroide em alta velocidade, chamado de Anaconda, ameaça se chocar com a Terra. Esta é a premissa do mais novo longa-metragem da diretora veterana Liliana Cavani, “A Ordem do Tempo”, que foi lançado oficialmente no Line up do Festival de Veneza do ano passado. Naquela oportunidade, Cavani recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra aos 90 anos de idade. Com uma filmografia memorável, a diretora italiana tem a oportunidade de refletir sobre o tempo e sobre a finitude iminente da vida neste filme, que é apontado como o último da carreira da cineasta após uma década sem filmar.
Liderando o encontro na praia, o casal Elsa (Claudia Gerini) e Pietro (Alessandro Gassmann) recebem seus convidados para o aniversário de 50 anos dela. Na lista de hóspedes, estão figuras interessantes e complexas que guardam alguma frustração em relação aos contornos que a vida os levou. Paola (Kseniya Rappoport) está em uma relação conjugal com um investidor seco e mais velho chamado Viktor (Richard Sammel), mas ela nutre um amor do passado por Enrico (Edoardo Leo), o convidado que traz a notícia sobre o asteroide e a iminência do impacto. Outros convidados se juntam ao grupo, mas não recebem tanta atenção do roteiro, que insiste também em tangenciar superficialmente a história da empregada doméstica da casa que quer voltar ao Peru para ficar com seu filho de sete anos e esperar o impacto na Terra.
Essas construções de relações humanas entre amigos e casais calcadas em frustrações, memórias e segredos ocultos, recebe uma carga de revelações à medida que o asteroide se aproxima e a sensação de tempo escasso começa a afetar o comportamento do grupo. Entre discussões sobre física, tempo distorcido e arrependimentos, o público testemunha situações embaraçosas quando as máscaras caem e os personagens abraçam a transparência de seus sentimentos uns com os outros diante do contexto. Não há mais espaço para convenções ou etiquetas sociais, o asteroide é um catalisador de emoções para aquela história que mesmo utilizando desta premissa interessante, nunca alcança o potencial que teria se tivesse um roteiro mais consistente.
“A Ordem do Tempo” é um filme de personagens e de relações humanas que falha por tocar só a superfície daquelas pessoas, é como se Cavani passasse um verniz em sua obra e tentasse empacota-la com um clima feel good e de filosofia New Age, abrindo mão de discussões mais relevantes ou reflexões mais contundentes. A diretora tenta fazer algo catártico, mas com o perdão do trocadilho, morre na praia.