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“A Garota da Agulha”: com estética expressionista e tons de fábula, longa retrata a realidade sombria do pós-guerra | 2025

O expressionismo alemão surgiu no cinema ainda nos anos 1920, em meio à crise social, econômica e política que assolava a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Esse movimento, breve, mas marcante, tornou-se uma forma de expressar as angústias coletivas e o pessimismo de uma sociedade devastada. Sua influência no cinema ultrapassou gerações, moldando gêneros como o horror e o noir, e segue perceptível até hoje, como demonstra o recente representante dinamarquês indicado ao Oscar, “A Garota da Agulha”.

Ambientado na Dinamarca nos últimos dias de guerra, e alguns dias após, o filme acompanha Karoline (Vic Carmen Sonne), uma jovem operária que enfrenta a ausência do marido desaparecido e a descoberta de uma gravidez indesejada. Após ser abandonada, ela encontra abrigo com Dagmar (Trine Dyrholm), uma mulher enigmática cuja ajuda logo revela segredos perturbadores.

Embora não seja um filme expressionista propriamente dito, a obra adota vários de seus códigos, captando sentimentos de angústia e alienação, aspectos muito característicos do período pós-guerra. A iluminação, com seu uso expressivo de sombras e contrastes, evoca clássicos como “Nosferatu“, com silhuetas em portas e escadarias que amplificam a tensão.

A narrativa combina elementos de fábula, especialmente na relação complexa entre Karoline e Dagmar. Em um ato desesperado, Karoline entrega sua filha aos cuidados de Dagmar, cuja figura remete ao arquétipo da bruxa. A casa de Dagmar, uma loja de doces, carrega símbolos visuais que lembram o conto João e Maria, de origem germânica. O filme também desconstrói os conceitos tradicionais de belo e monstruoso, apresentando o primeiro como cruel e enganador, enquanto o segundo revela humanidade e empatia. Essa inversão dialoga com a dinâmica de contos como A Bela e a Fera, originário das tradições orais francesas do século XVIII. Ao combinar essas reinterpretações com uma estética que transita entre o realismo histórico e o simbolismo sombrio, a obra se ancora em dimensões profundamente enraizadas na tradição cultural europeia.

Dirigido pelo dinamarquês Magnus von Horn, “A Garota da Agulha” insere-se na rica tradição cinematográfica de seu país, ao abordar traumas universais e explorar com profundidade os aspectos mais sombrios da condição humana. Horn contribui de forma singular para esse legado, oferecendo uma obra que reflete com sensibilidade e vigor sobre medos, desejos e contradições que transcendem gerações.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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