“Desconhecidos” : longa propõe jogo de percepções em que duvidar é a única certeza | 2025

Dirigido por JT Mollner, “Desconhecidos” vem recebendo excelentes críticas desde sua primeira exibição, ainda em 2023, no Fantastic Fest — o maior festival de cinema fantástico dos Estados Unidos, realizado anualmente em Austin, Texas. Recentemente, em fevereiro deste ano, conquistou o prêmio de Melhor Thriller no Saturn Awards. Toda essa aclamação não é fruto do acaso, tampouco de surto coletivo: o filme alia apuro técnico a uma narrativa que prende a atenção do começo ao fim.
A estrutura não linear adotada não é exatamente uma novidade. Filmes populares como “Pulp Fiction” (1994), “Amnésia” (2000) e “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (2004) já contribuíram para consolidar esse tipo de abordagem. Mesmo clássicos como “Rashomon” (1950) e “Cidadão Kane” (1941) já haviam introduzido a ideia de perspectivas fragmentadas e descontinuidade temporal. No entanto, há um risco inerente ao uso de estruturas não convencionais: o de escorregar para um virtuosismo vazio ou cair na armadilha de simular profundidade onde não há.
Felizmente, “Desconhecidos” contorna com inteligência essas armadilhas. Ao fragmentar a história em seis partes e apresentá-las fora de ordem cronológica, o filme não recorre a truques fáceis nem aposta em confusão deliberada. Em vez disso, propõe um envolvimento genuíno do espectador, que é desafiado a recompor os acontecimentos sem jamais perder o fio da tensão — constante, precisa e ascendente. A mensagem ressoa com clareza: nem tudo é o que parece.
“Desconhecidos” é daqueles filmes em que quanto menos se sabe, melhor. Até mesmo a sinopse corre o risco de moldar expectativas indevidas. Basta saber que se trata de uma perseguição intensa, em que a protagonista, vivida com incrível entrega por Willa Fitzgerald, está em fuga desesperada de seu algoz, interpretado por Kyle Gallner. Seus nomes permanecem ocultos, ao menos os verdadeiros. O fato de não iniciarmos a narrativa pelo primeiro capítulo não é um artifício gratuito: somos lançados diretamente no olho de um furacão, e essa desorientação inicial não serve apenas para intrigar, ela fundamenta a experiência. É nesse caos cuidadosamente construído que, pouco a pouco, as peças se encaixam.
O filme concede algumas breves pausas, mas engana-se quem pensa que servem para alívio ou respiro. Não há calmaria, nem mesmo no silêncio. É justamente nesses momentos que as interpretações ganham ainda mais força: a dúvida e o nervosismo presentes nos olhares são palpáveis, e é sobre esse terreno instável que se constrói o caminho para o que está por vir. O filme também rompe com a lógica maniqueísta da identificação fácil entre mocinhos e vilões. A subversão de expectativas tem como propósito semear pistas ambíguas para ambos os lados, reforçando o sentimento de constante instabilidade que atravessa toda a obra.
Filmado em 35mm, o longa ganha mais força quando visto na maior tela possível. Após longa espera, finalmente recebe distribuição no Brasil, o que por si só já é motivo pra comemorar. É evidente que não agradará a todos: haverá os autoproclamados sabichões que alegarão ter decifrado o enredo logo nos primeiros minutos. Mas um pouco de peito aberto pode fazer toda a diferença. “Desconhecidos” é o tipo de filme que recompensa a entrega, portanto, permita-se.