“Baile das Loucas”: Longa aborda a mentalidade de uma sociedade doente e a opressão sobre corpos femininos | 2024

A arte, historicamente dominada por homens, frequentemente utiliza o feminino como tema, mas a autoria permanece majoritariamente masculina. Em “Baile das Loucas”, o conceito de sororidade é abordado com sensibilidade, sem romantizar as dores e resistências das vítimas. No entanto, apesar do discurso poderoso, a narrativa dirigida por Arnaud des Pallières acaba se tornando genérica em sua execução. Embora a direção demonstre um conhecimento profundo do tema, falta o toque emocional que cineastas como Almodóvar, ou muitas cineastas mulheres, poderiam trazer, resultando em um relato esteticamente refinado, mas limitado em profundidade emocional.
O filme é ambientado na Paris de 1894. Anualmente, o hospício feminino La Pitié Salpêtrière se converte em palco para um popular baile, onde as mulheres com bom comportamento são escolhidas para participar. Entre essas mulheres está Fanni (Mélanie Thierry), que, ao contrário da maioria e por motivos desconhecidos, internou-se voluntariamente. Nesse ambiente recluso e insalubre ela encontra seu único refúgio nas outras internas, mas também acaba enfrentando seus piores pesadelos.
Visualmente, o filme é extremamente imersivo. Os enquadramentos, predominantemente fechados, exploram de maneira intensa as feições angustiadas e sofridas das internas, ao mesmo tempo em que reforçam a sensação de um ambiente claustrofóbico e sem saída. As maquiagens e o figurino complementam essa abordagem, reforçando a atmosfera opressiva. As imagens ganham uma textura palpável, transmitindo não apenas visualmente, mas também sensorialmente, a ideia de um lugar sujo e indesejado.
Há momentos em que as próprias mulheres se tornam algozes, mas é na solidariedade entre elas que encontram forças para preservar a sanidade em meio àquele mundo profundamente doente. É crucial destacar que a pior das patologias não reside nas mentes das internas, mas na sociedade e em suas regras opressivas e sem sentido. Assim como no Brasil, com o exemplo de Barbacena, o enclausuramento daqueles considerados “subversivos” foi um ato que afetou profundamente toda a sociedade dita “civilizada”. Mesmo hoje ainda vemos reflexos dessa mentalidade reacionária manifestando-se em discursos morais e políticos. Em “Baile das Loucas”, essa crítica é bastante vocal, embora acabe por ser genérica e convencional em sua abordagem.
Em muitas ocasiões, os títulos originais dos filmes não são preservados, e nomes alternativos são adotados. Os motivos variam, sendo um dos principais tornar o conteúdo do longa mais facilmente identificável, o que favorece o marketing. No entanto, há casos em que essa mudança parece inexplicável, como em “Baile das Loucas”. O título original, “Captives”, por si só já transmite a essência do filme, tornando desnecessário qualquer comentário adicional. A escolha do título em português não só distorce a ideia central, como também beira a estupidez.